Belca

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A Artista em Pauta, Belca, mãe, empreendedora, artista visual, transforma os espaços com suas obras. Seus trabalhos despertam experiências sensoriais, por meio das texturas e colagens coloridas de papel. Na entrevista, ela nos conta um pouco do seu trabalho, desafios e sua relação com a arte manual.

Conte um pouco sobre você
Eu nasci e fui criada dentro desse caldeirão cultural que é a cidade de São Paulo. Entretanto, desde cedo tive a oportunidade de estar em contato com o campo por meio do sítio da família, localizado em Guararema (SP). Essa proximidade com a natureza foi sempre muito importante para mim e uma influência fundamental para a minha criação artística.

Já minha história com as artes propriamente dita teve início com a máquina de costura da minha avó ainda na infância e só veio se fortalecendo de lá pra cá. Foi essa conexão precoce com o universo artístico que me levou a estudar Design na Faculdade Belas Artes de São Paulo. Nessa profissão, em que atuei por uns bons anos, pude aprimorar meu olhar artístico, além de ter me mantido sempre conectada ao universo das formas e cores.

Posteriormente, morei em Londres, onde me aproximei da arte de rua, das intervenções urbanas e de toda a energia e expressões artísticas daquela megalópole. Além disso, tendo sempre a capital inglesa como base, aproveitei para “mochilar” pelos países do Velho Continente, desbravando a Renascença, o Art Nouveau e o Modernismo.

De volta a São Paulo, me aventurei na área de criação de agências de comunicação e no mundo corporativo de uma grande multinacional, difundindo a cultura digital, trabalhando de forma direta com grandes agências de publicidade e atuando de perto com mídia online e offline. Me formei também em um MBA de Marketing Digital pela FGV São Paulo.

No entanto, passei por um momento delicado, que me levou a desenvolver a Síndrome de Burnout. Como forma de superar essa fase desafiadora, resolvi, em meados de 2019, me voltar à arte, dedicando a ela toda a minha atenção. Foi assim que nasceu meu “arte-empreendedorismo”, contando sempre com o apoio de um marido empreendedor e designer, de uma mãe pintora e de uma filha arteira.

Belca, aliás, é um apelido carinhoso dado pela minha mãe. Também é uma feliz junção do meu nome, Isabel, e meu primeiro sobrenome, Camargo. Digo feliz pois é dessa ascendência que trago meu lado artístico. Minha avó era muito talentosa, dona de mil habilidades manuais, e suas três filhas, minha mãe e tias, são artistas que admiro muito.

Imagem: Acervo Belca

Como você entrou nesse universo manual?
Eu sempre me mantive perto das artes como hobbie e terapia, naveguei pela costura, pelo feltro, pelo bordado, pelo mundo dos acessórios. No entanto, quando decidi me voltar definitivamente à arte, como forma de superar o Burnout, iniciei também uma profunda busca conceitual por um estilo artístico próprio. Me propus então o desafio de realizar um trabalho criativo diário, ao longo de cem dias, sempre tendo em mente a questão “Quem sou eu na arte?”.

Eu comecei então a chegar em um desenho. Antes da colagem em papel, eu cheguei em um desenho que me representava. Eu comecei a descobrir que eu amava trabalhar com linhas. Assim desenvolvi um desenho, um objeto, com inspiração em formas da natureza e presença marcante de linhas, que eu passei a chamar de pinõn. Cheguei, aliás, a fazer algumas composições só de pinõns.

Aí, um dia uma amiga falou “eu quero um quadro seu, faça o que você quiser”. Foi nessa ocasião que eu falei “agora eu vou para a colagem em papel”. Assim, transferi esse desenho que eu vinha concebendo ao longo de cem dias para a colagem em papel. E acabei me encantando com as infinitas possibilidades de composição do recorte e colagem, que, para mim, trazem uma linda analogia às fases da vida: construção, desconstrução e reconstrução. Afinal, a colagem exige criatividade para compor um novo cenário com os mesmos elementos.

Foi assim que desenvolvi o método @belca. Minhas obras têm inspiração na natureza com composições únicas em recorte e colagem, que levam cores e significado pra dentro das casas dos meus clientes e seguidores, com a escolha dos papéis, cores, texturas e medidas sendo feita especialmente para cada projeto.

Imagem: Acervo Belca

Qual é o processo de criação das suas peças? 
A metodologia “Belca” é, sem dúvida, uma vertente da colagem, mas a forma de fazer é toda original, foi a minha prática que foi acontecendo e me levou a esse método de trabalho.

Eu começo a fazer os desenhos na própria folha de papel, depois vem a etapa do recorte, e aí vem a etapa da composição, que é a fase que eu mais gosto, pois me proporciona um momento de trabalho totalmente livre e que permite muitas possibilidades.

Assim, depois de recortar alguns elementos, eu vou escolhendo a composição, definindo como essas formas irão se ligar sobre o papel. É um trabalho com um caráter muito lúdico, existe uma sensação de brincadeira mesmo, montando e desmontando os elementos até o momento em que a composição me agrade. Ao mesmo tempo, esse método de trabalho gera um estado meditativo que conduz a uma sensação de bem-estar tão preciosa quanto o resultado final do trabalho artístico. Isso é muito especial.

Ah, também costumo usar todos os gêneros de papéis, desde o mais simples até o mais rebuscado, passando ainda pelo reciclado ou pelo papel texturizado, pois isso me permite ter uma rica gama de cores, texturas e camadas.

Imagem: Acervo Belca

Quais são as suas inspirações?
A natureza é, sem dúvida, a inspiração-mãe para o meu método de trabalho. As composições e combinações de cores estão todas prontas na natureza, a gente só precisa conseguir olhar e, é claro, como sou brasileira e tenho o meu DNA tropical, sinto esse impulso de buscar referências na nossa alegria, na nossa herança genética, então eu gosto muito de explorar as cores e suas inúmeras possibilidades.

Creio que nesse sentido minha vivência no campo, no sítio, foi e ainda é muito importante para apurar meu olhar em relação à natureza. Quem me segue nas redes sociais, sabe como gosto de aproveitar os finais de semana para identificar na vegetação diferentes palhetas de cores, cheias de nuances e com uma harmonia sempre tão incrível.

Qual é o seu compromisso e suas práticas sustentáveis no momento? 
Eu trabalho com o papel, a madeira e o vidro, que são bens duráveis e totalmente recicláveis. Além disso, como este é um setor já bastante maduro em relação às práticas ambientais, fico feliz em dizer que todos os fornecedores com os quais trabalho adotam condutas sustentáveis.

O nosso fornecedor de papel, por exemplo, possui certificações como a FSC (sistema de certificação florestal internacionalmente reconhecido, que identifica, através de sua logomarca, produtos originados do bom manejo florestal)e a ISO 14001 (sistema que atesta a gestão ambiental voltada à proteção do meio ambiente), entre outros.

E até mesmo as molduras que utilizamos em nossos quadros são feitas a partir de madeira de reflorestamento, o que é importante pois elimina a necessidade de se extrair madeiras de florestas nativas, contribuindo para a diminuição do desmatamento, preservando a biodiversidade e colaborando para a manutenção dos regimes hídricos, fertilidade do solo e qualidade do ar e da água.

Entretanto, como acredito que essa deve ser uma questão inerente à compreensão da cidadania nos tempos atuais, procuro não explorar esse tema na divulgação e no marketing relacionado ao meu trabalho. Afinal, nossa empresa já nasceu com essa preocupação de forma intrínseca.

Quais são os maiores desafios para você?
Eu brinco que a arte representa apenas 30% de tudo o que eu faço, pois, além de criar, é preciso gerir o todo. Há a divulgação, a questão financeira, a precificação, a entrega. Sem falar que neste momento estamos em uma fase muito desafiadora, em que é preciso equilibrar família, casa e trabalho com esse sentimento de cansaço provocado pelo isolamento social e pela insegurança decorrente da pandemia. Mas acredito que isso tudo faz parte desse processo de quem quer criar e empreender.

Dentro desse cenário, acho que o maior desafio é correr atrás das informações que eu ainda não possuo, é estar aberta para melhorar em alguma frente que eu ainda não domino. Particularmente, sinto dificuldade em lidar com os assuntos financeiros e com as questões contábeis, então eu tenho procurado aprender, me informar e correr atrás, buscando me capacitar para lidar com um assunto que eu ainda não domino.

Você  possui algum projeto que possa nos adiantar? 
Sim, este segundo semestre promete ser movimentado. Estou muito feliz por ter sido selecionada para participar da Art of Love SP 2021 , exposição que levará amor em forma de arte para a vida dos paulistanos, por meio de dezenas de esculturas de corações gigantes, distribuídas por diversos pontos de grande circulação de São Paulo.

Também estou ansiosa pela publicação do anuário Arte Brasileira Atual 2021, que deverá acontecer no mês de outubro, trazendo um perfil do meu trabalho. Será muito bom ter a oportunidade de apresentar o método @Belca a mais pessoas do meio artístico.

Por fim, não posso deixar de citar o trabalho de transposição das minhas colagens para o espaço urbano. Brinco que estou ampliando a tela da arte. Por meio da antiga técnica do lambe-lambe, tenho procurado alegrar e colorir o caminho das pessoas. Minha primeira experiência foi em um grande muro lá na Rotatória das Artes, no Jardim Rolinópolis, bairro em que cresci. Agora, neste segundo semestre, devo levar este trabalho para novos e desafiadores cenários da cidade.

Imagem: Acervo Belca

Você leva arte para dentro da casa das pessoas. Como você é isso para você? 
Essa é uma experiência muito especial, pois envolve toda uma sintonia e a compreensão dessa pessoa que está adquirindo a minha arte. Afinal, no meu caso, a definição de como será a arte acontece com base na casa da pessoa, não é simplesmente uma arte pronta que está sendo levada para dentro da casa do comprador.

Todo processo de criação é feito pensando no ambiente em que aquela arte será instalada. As cores, por exemplo, são definidas com base no ambiente e no gosto da pessoa que a está adquirindo. Além disso, levo vários aspectos em consideração na hora de desenvolver uma arte, como qual a cor das paredes daquele ambiente e se já há outros quadros ou objetos ali.

Então não é só uma questão de o quadro estar entrando na residência daquela pessoa, pois ele já foi pensado e concebido para se adaptar à casa e à história de quem a está adquirindo. Muitas vezes eu incluo elementos que tem um significado especial para aquela pessoa, pode ser a silhueta de alguém querido, uma forma floral ou um tema oriental. A obra é concebida a partir dessa referência pessoal, com o objetivo de que quem a está adquirindo se sinta muito feliz e resgate a história ligada a ela sempre que olhar para o quadro.

Imagem: Acervo Belca

Imagem: Acervo Belca

Imagem: Acervo Belca

 

Imagem: Acervo Belca

Imagem: Acervo Belca

Conheça mais o trabalho da Belca através do site e instagram.

Conhece alguém que pode se interessar pelo trabalho artístico? Então compartilhe nosso artigo e incentive outros a refletirem sobre o assunto.

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