Simone Anjos – Angá Art

Simone Anjos – Angá Art

Simone Anjos, na frente da Angá Art, leva afeto para as pessoas através das suas cerâmicas. Ela desenvolveu uma linha de vasos em formato de órgãos humanos, estabelecendo um elo entre os órgãos e as emoções humanas. Com forte influência na natureza e ancestralidade. Aliás Angá significa afeição em tupi-guarani, quer algo mais cheio de história?

 

Conta um pouquinho sobre a sua história para a gente?  Sou santista, nascida entre linhas, tintas e tudo que é criativo e manual, vindo da minha mãe , uma artista nata e bebida da fonte literária do Papis, que sempre cercou a minha infância com muitos livros, enciclopédias com ilustrações lindas e fascículos de arte. A arte e o fazer manual sempre estiveram presentes em minha vida, Fui professora de educação infantil e tudo o que eu podia ensinar através da arte era acrescido as outras disciplinas, fiz jornalismo, mas não conclui e me formei técnica ambiental. Hoje, todas essas competências estão agregadas a Angá. Me casei muito nova e tive minha filha aos 20 anos, o segundo filho aos 24 anos, por escolha decidi me dedicar integralmente a criação deles, isso foi fantástico pelo lado afetivo, mas sem dúvida houve um retrocesso no lado profissional. Sem carregar culpas ou traumas, acho que tudo é uma questão de escolha e de arcar com os prós e os contras. Durante quase 20 anos de relacionamento, a veia criativa estava lá, muitas vezes empregada em várias atividades, mas nunca incentivada pelo companheiro. Aos quase 40 anos, larguei tudo, me separei sem condição financeira alguma e fui viver do que amava e que nunca imaginei que seria profissão. Virei muralista e parte da equipe técnica de um grande artista, com ele viajei pelo Brasil e Argentina, fazendo murais, passei a fazer meus murais autorais, mas foi só com a criação da Angá, que senti que a minha arte estava pronta, era minha, minha identidade e gostos. Em 2018 fiz o curso de cerâmica e me apaixonei por modelar, acabado o curso, fiz a primeira peça sozinha, em casa, foi o vaso coração, vendi no mesmo dia e vi a possibilidade de que aquela arte tinha um potencial, mas só o coração sozinho não era suficiente, criei então uma linha de vasos para pequenos espaços em formato de órgãos humanos, eu queria com eles estabelecer um elo entre os órgãos e as emoções humanas, ao cuidar das plantas, ao levar um coração pulsante, um cérebro carregado de comandos emocionais, um útero que gera a vida, o pulmão. Bom, agora eu tinha uma linha de vasos autorais, mas e o nome? Eu queria que fosse brasileiro, nosso, ligado a terra e ligado às emoções. Fui procurar palavras indígenas e achei Angá, que quer dizer Afeição em tupi guarani. Pronto, era isso, o barro moldando peças uma a uma, pelas minhas mãos, o afeto, era isso que eu queria levar para as pessoas.

 

Fotos acervo Simone Anjos

 

Como é o processo de criação das suas peças? Instintivo e emocional, rs. Acho importante eu amar o que faço, então todas as peças foram pensadas inicialmente para mim, eu gostaria de ter todas elas, partiu do meu gosto pessoal, do meu universo para poder ser de verdade. Mas sempre que uma peça nova será criada é um momento tenso. Quando você desenvolve uma peça, dá certo e você a reproduz, por mais que sejam moldadas uma a uma, você já conhece o caminho, algo novo é desconhecido, como modelar, onde reforçar, peso, tamanho e isso, no meu caso, só se resolve depois da queima e da queima de esmaltação, que é outroooooo universo.

 

Quais são as suas referências? Eu estou nesse universo da cerâmica faz pouco tempo, dois anos, entre curso e a criação da Angá, então todo dia descubro artistas brasileiros e de fora, incríveis, é muito poder ter esse estímulo visual. Mas sem dúvida nenhuma, a arte brasileira popular do Nordeste e do Vale do Jequitinhonha é minha maior inspiração. Ver mãos tão habilidosas, saberes passados por gerações, famílias inteiras na arte do barro, é inspirador.

 

Qual é o seu compromisso e suas práticas sustentáveis no momento? O meu maior desafio é com a total retirada do plástico nas embalagens, por um lado preciso banir esse material da questão proteção das peças no envio, por outro é uma preocupação imensa que a peça chegue íntegra ao cliente. Estou estudando materiais que sejam menos agressivos ao meio ambiente, mas que tenham a mesma proteção das peças. no mais é gerar o menos lixo possível, imprimir apenas as etiquetas que são obrigatórias no envio e optei por não ter etiqueta, nem cartão de visitas, uso folhas coletas nas ruas, isso já virou marca da Angá.

 

Fotos acervo Simone Anjos

 

Quais são os maiores desafios para você? Estrutura e administrativo. Me estruturar como uma marca é um caminho que tenho feito aos poucos, trabalho em casa, é uma casa- atelier e daqui saem todos os ofícios, fazer as peças, mídias sociais, pacote, envio, ida a transportadora, atendimento, com certeza isso faz com que o processo de crescimento da Angá seja mais lento. Mas não me cobro e não me torturo por isso, acho que focar no crescimento que já tive, me faz mais leve e é leveza que eu quero para a marca. Criei a Angá em Julho de 2019, vendendo a amigos e conhecidos, depois participando de feiras de economia criativa locais. Hoje a Angá está em praticamente todos os estados, vendo minhas peças de Norte a Sul do país e isso é um crescimento afetivo e efetivo, só posso agradecer e me empenhar mais no trabalho. Quanto a estrutura, a compra de um forno é uma meta, assim como a estruturação de um espaço melhor para trabalho, nem que seja ainda em casa. E o administrativo venho tendo evoluções, mas colocar todos insumos e serviços na ponta do lápis ainda pode ser melhorado.

 

 

 Você possui algum projeto em vista que possa nos adiantar? Fazer com que a cerâmica possa chegar a mais pessoas, voltar a dar aulas é uma grande vontade, pois parei por causa da pandemia, ministrava cursos livres na unidade do Sesc Santos. Que a cerâmica seja uma plataforma, um elo entre eu e as pessoas e suas falas e ansiedades, poder moldar a terra e se expressar através dela é terapêutico e pode ser um ótimo instrumento educacional e afetivo.

 

 

Fotos acervo Simone Anjos

 

Você leva arte manual para dentro da casa das pessoas. Como você é isso para você?  Ahhh, sem dúvidas, essa é a melhor parte. Estar dentro da casa das pessoas e servir de instrumento para que as pessoas construam suas histórias afetivas com os seus. Nesse um ano e alguns meses de Angá, pude construir uma peça que foi um pedido especial, dois corações unidos e costurados, que representariam o amor de 32 anos de um casal, onde um partiu repentinamente. Pude também fazer e enviar um coração a Manaus, onde uma amiga o usaria para presentear outra, que passaria com uma intervenção cirúrgica cardíaca. Esses momentos fazem tudo valer a pena.

 

 

Conheça mais o trabalho da Simone no Instagram.

Conhece alguém que pode se interessar pela decoração artesanal? Então compartilhe nossas entrevistas e incentive outros a refletirem sobre o assunto.

No Comments

Post A Comment

Cadastre-se!

Olá! Deixe o seu e-mail para receber conteúdos exclusivos, novidades e descontos.